Por
Omar Muro Rodriguez
Após
uma visita na Modern Sound, num ambiente envolvido pela música, entrei com
bastante receio no acervo de DVDs, pois a famosa loja pratica valores acima do
que podemos considerar normais. O título mais barato, por exemplo, custa 54
reais. Para minha surpresa, encontrei uma coleção de três DVDs, pouco difundida
e vendida, chamada "O som como parte da narrativa". Uma coleção
Grandes Cursos - Cultura na TV. No início, por se tratar de um curso da
televisão, decidi não comprar.
De volta
para casa procurei o título na internet, no site da TV Cultura Marcas, no Submarino
esgotado, no Emule, famoso programa para download de filmes e em todos os
lugares possíveis que pude lembrar. Mas, não achei nada sobre o tema; apenas
alguns trechos no Youtube sobre o autor do curso, o maestro e arranjador
brasileiro Júlio Medaglia, compositor de trilhas sonoras para filmes, peças de
teatro e TV, e compositor de arranjos interpretados e gravados por membros da
melhor orquestra do planeta, a Filarmônica de Berlim.
Decidi
então arriscar e comprar os três DVDs na Modern Sound, após a facada de 162
reais, sem direito a desconto. Cheguei em casa e assisti a todos.
No
primeiro, "Trilha Sonora de ficção", de 85 minutos, o maestro Júlio
Medaglia discute a importância do som na narrativa e nos mostra como a trilha
sonora pode atuar dentro de uma história. Como exemplo, ele analisa a música
dos filmes "O Iluminado", "Central do Brasil" e
"Moulin Rouge". O compositor também examina o filme "As Boas
Vidas", de Federico Fellini, e aponta os equívocos da trilha sonora feita
por Nino Rota. Ainda põe em discussão a sonoplastia da novela "Os
Adolescentes", da TV Bandeirantes, e dos desenhos de "Tom e
Jerry". Nesse DVD o maestro faz uma breve passagem histórica pelo rádio,
televisão e cinema brasileiro.
"Análise
musical - A Orquestra" é o segundo DVD, de 88 minutos, no qual Medaglia faz
a análise da trilha sonora composta por Bernard Hermann para "Um Corpo que
Cai", um clássico de Alfred Hitchcock. Na segunda parte, o maestro e a
Sinfônica Cultura executam no palco trechos de clássicos do cinema. Além disso,
ele apresenta, com a ajuda dos músicos, cada instrumento de uma orquestra. Em
minha opinião, o melhor dos três DVDs. Júlio Medaglia apresenta a genialidade
do diretor Alfred Hitchcock, com quem música e ruídos ganham personalidades
próprias de identificação entre os personagens e a narrativa do filme.
No
terceiro e último, "Perguntas e respostas", o maestro encerra o
curso, tirando dúvidas e respondendo às curiosidades da platéia. Em apenas 40
minutos, verifica-se que partes das respostas já foram repetidas nos DVDs
anteriores. Péssimo para quem pagou 54 reais por um DVD.
Em resumo,
essa coleção de 2005, gravada em abril de 2003, merece ser vista por todo
profissional, estudante de cinema e interessado em música em geral. O curso pretende
investigar a capacidade da música como transmissora de ideias e desenvolver o
raciocínio dramatúrgico da expressão sonora. Por isso, ensina como usar a
linguagem musical, atribuindo ao som uma função efetiva à obra.
O
maestro parte da premissa de que a música possui uma capacidade narrativa de
explicitar ideias muito poderosas. Apesar da maioria dos sonoplastas ou autores
de trilhas fazerem uso muito superficial da paleta sonora, quando associada a
um contexto dramatúrgico, o som pode ter funções específicas de informação.
Uma
pena que uma coleção dessa importância esteja esquecida em locais de pouco
acesso e a um custo elevado, principalmente tratando-se de produto oferecido
pela TV Cultura, emissora pública de caráter educativo e cultural. A coleção
deveria estar à disposição na internet de forma gratuita, podendo auxiliar no
ensino em faculdades e escolas.
Fonte:
Julio
Medaglia, Biografia do compositor.
Paulo
Eduardo Neves, "O som como parte da Narrativa".
Abril
de 2003.
