quinta-feira, 28 de outubro de 2010

O SOM COMO PARTE DA NARRATIVA


Por Omar Muro Rodriguez

 Após uma visita na Modern Sound, num ambiente envolvido pela música, entrei com bastante receio no acervo de DVDs, pois a famosa loja pratica valores acima do que podemos considerar normais. O título mais barato, por exemplo, custa 54 reais. Para minha surpresa, encontrei uma coleção de três DVDs, pouco difundida e vendida, chamada "O som como parte da narrativa". Uma coleção Grandes Cursos - Cultura na TV. No início, por se tratar de um curso da televisão, decidi não comprar.

De volta para casa procurei o título na internet, no site da TV Cultura Marcas, no Submarino esgotado, no Emule, famoso programa para download de filmes e em todos os lugares possíveis que pude lembrar. Mas, não achei nada sobre o tema; apenas alguns trechos no Youtube sobre o autor do curso, o maestro e arranjador brasileiro Júlio Medaglia, compositor de trilhas sonoras para filmes, peças de teatro e TV, e compositor de arranjos interpretados e gravados por membros da melhor orquestra do planeta, a Filarmônica de Berlim.

Decidi então arriscar e comprar os três DVDs na Modern Sound, após a facada de 162 reais, sem direito a desconto. Cheguei em casa e assisti a todos.

No primeiro, "Trilha Sonora de ficção", de 85 minutos, o maestro Júlio Medaglia discute a importância do som na narrativa e nos mostra como a trilha sonora pode atuar dentro de uma história. Como exemplo, ele analisa a música dos filmes "O Iluminado", "Central do Brasil" e "Moulin Rouge". O compositor também examina o filme "As Boas Vidas", de Federico Fellini, e aponta os equívocos da trilha sonora feita por Nino Rota. Ainda põe em discussão a sonoplastia da novela "Os Adolescentes", da TV Bandeirantes, e dos desenhos de "Tom e Jerry".  Nesse DVD o maestro faz uma breve passagem histórica pelo rádio, televisão e cinema brasileiro.

"Análise musical - A Orquestra" é o segundo DVD, de 88 minutos, no qual Medaglia faz a análise da trilha sonora composta por Bernard Hermann para "Um Corpo que Cai", um clássico de Alfred Hitchcock. Na segunda parte, o maestro e a Sinfônica Cultura executam no palco trechos de clássicos do cinema. Além disso, ele apresenta, com a ajuda dos músicos, cada instrumento de uma orquestra. Em minha opinião, o melhor dos três DVDs. Júlio Medaglia apresenta a genialidade do diretor Alfred Hitchcock, com quem música e ruídos ganham personalidades próprias de identificação entre os personagens e a narrativa do filme.

No terceiro e último, "Perguntas e respostas", o maestro encerra o curso, tirando dúvidas e respondendo às curiosidades da platéia. Em apenas 40 minutos, verifica-se que partes das respostas já foram repetidas nos DVDs anteriores. Péssimo para quem pagou 54 reais por um DVD.

Em resumo, essa coleção de 2005, gravada em abril de 2003, merece ser vista por todo profissional, estudante de cinema e interessado em música em geral. O curso pretende investigar a capacidade da música como transmissora de ideias e desenvolver o raciocínio dramatúrgico da expressão sonora. Por isso, ensina como usar a linguagem musical, atribuindo ao som uma função efetiva à obra.

O maestro parte da premissa de que a música possui uma capacidade narrativa de explicitar ideias muito poderosas. Apesar da maioria dos sonoplastas ou autores de trilhas fazerem uso muito superficial da paleta sonora, quando associada a um contexto dramatúrgico, o som pode ter funções específicas de informação.

Uma pena que uma coleção dessa importância esteja esquecida em locais de pouco acesso e a um custo elevado, principalmente tratando-se de produto oferecido pela TV Cultura, emissora pública de caráter educativo e cultural. A coleção deveria estar à disposição na internet de forma gratuita, podendo auxiliar no ensino em faculdades e escolas.

Fonte:

Julio Medaglia, Biografia do compositor.

Paulo Eduardo Neves, "O som como parte da Narrativa".
Abril de 2003.